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Quando um lugar vira personagem


Recentemente, encontrei minha antiga dissertação de mestrado. Ela estava escondida numa pasta que eu não abria havia anos, e me sentei para dar aquela folheada nostálgica, plenamente preparada para morrer de vergonha.

Querida leitora (incorporando a Lady Whistledown que existe em mim 😌), sim, eu morri um pouquinho de vergonha. Mas também encontrei algo que fez meu coração dar um pequeno salto.

Porque ali, preto no branco, com notas de rodapé, bibliografia e tudo mais, estava uma argumentação acadêmica de vinte mil palavras defendendo que a cidade de Napoli é uma personagem deste livro. Eu tinha defendido aquilo de verdade. Longamente. Quatorze anos antes.

Eu tinha esquecido completamente que um dia soube disso.

Academic poster titled "Finding Home," outlining the creative writing and critical theory behind Loveandpizza.it
Em 2012, escrevi 20.000 palavras defendendo que Napoli não é simplesmente o cenário de Loveandpizza.it. É uma personagem. Anos depois, encontrei a prova novamente e percebi que tinha esquecido completamente meu próprio argumento. (Foto: o pôster da apresentação da minha dissertação de mestrado.)

O que eu não sabia que estava fazendo

Aqui vai minha confissão. Durante anos, pensei em mim mesma como uma escritora intuitiva e impulsiva. Eu me sentava, as coisas saíam e eu não fazia a menor ideia do que estava acontecendo nos bastidores. Parecia um pouco magia e um pouco sorte, e eu tinha quase certeza de que, se olhasse para aquilo de perto demais, tudo pararia de funcionar.

Acontece que eu estava fazendo algo que tinha nome. Várias coisas, na verdade, e todas parecem inteligentíssimas agora que alguém me contou como se chamam.

A principal delas: eu não estava inventando Napoli e depois colocando Carolina dentro dela. Estava simplesmente deixando a cidade real fazer o trabalho.

Como colocar uma cidade de verdade dentro de um livro

Quando eu morava lá, sem conhecer a palavra para isso, estava fazendo etnografia. Que é um termo muito pomposo para uma coisa bastante simples: eu observava as pessoas. Constantemente. Observava as pessoas no funicular, nas pizzarias e da minha janela sobre o Quartieri Spagnoli e, quando não conseguia descobrir o que um dos meus personagens faria de maneira plausível em determinada cena, eu observava. Ou perguntava aos meus alunos, principalmente quando se tratava dos personagens italianos: “Onde ele a levaria? O que pediria? Ele realmente diria aquilo ou essa era a ideia de uma estrangeira sobre o que ele diria?” Eles me ajudavam a manter tudo autêntico e, na maior parte do tempo, ainda me faziam rir.

E, em 2012, quando eu ainda estava mergulhada na escrita, voltei sozinha para Napoli. Só eu, um caderno e um plano de caminhar até o livro voltar a fazer sentido. Percorri as mesmas ruas que Carolina percorre, tentando sentir o que ela sente, tentando recuperar os detalhes que eu começava a esquecer. O barulho. O cheiro de pedra molhada depois da chuva. A maneira como a cidade te envolve por todos os lados e, ao mesmo tempo, te sustenta.

Eu achava que estava refrescando a memória. Na verdade, estava fazendo pesquisa de campo.

A stone bell tower with bells visible, overlooking the Naples skyline and Mount Vesuvius at dusk
De volta a Napoli sozinha em 2012, caminhando pelas mesmas ruas que Carolina percorre (e que eu também tinha percorrido!), tentando recuperar aquilo que eu começava a esquecer. (Foto do arquivo pessoal)

E então, a palavra para explicar tudo

Esta é a parte que me pegou um pouco de surpresa quando reli.

Na dissertação, tomo a liberdade de chamar Carolina de flâneuse. É uma palavra que chegou até mim através de leituras mais amplas sobre Virginia Woolf e seu círculo, que questionavam a velha ideia de que a flânerie era uma atividade exclusivamente masculina. Uma linda palavra antiga para descrever uma mulher que caminha por uma cidade não para chegar a algum lugar, mas para lê-la e, ao lê-la, ler a si mesma. Carolina usa as ruas como corredores, não como destinos. Ela não está fazendo compras. Está procurando a vida.

E eu tinha escrito esta frase sobre ela, que não me lembro de ter escrito, mas pela qual, aparentemente, estava disposta a apostar um mestrado inteiro:

“Ela absorveu a cidade.”

Esse é praticamente o livro inteiro. Era isso que eu vinha tentando alcançar às cegas, sem ter o vocabulário para explicar. Carolina vai para Napoli para fugir da própria vida e, em algum ponto de todas aquelas caminhadas, acaba encontrando a si mesma e um lar. A cidade entra nela. Muda o que ela quer e aquilo que tem coragem de tentar alcançar.

Você não simplesmente ambienta uma história num lugar como Napoli, ah, não… Em Loveandpizza.it, é Napoli que dita as regras da história.

O caos e os segredos que precisavam virar uma história

Vou mostrar mais uma coisa daquelas páginas antigas, porque é o motivo pelo qual estou escrevendo este post em vez de fechar a pasta discretamente e guardá-la de novo.

Nos agradecimentos, agradeci à minha irmã Cíntia “por ter sido a inspiração para a heroína destas histórias”.

Ela ainda é. Foi a musa desde a primeira palavra e, anos depois, voou comigo para Napoli para me ajudar a trazer tudo de volta à vida. Alguns personagens são construídos. Carolina nasceu do amor primeiro e foi construída depois.

Minha irmã na cidade que a transformou em Carolina. (Vídeo do arquivo pessoal, publicado com a autorização dela.)

(Pequeno parêntese, porque é bastante apropriado para um livro sobre reencontrar as próprias raízes: a dissertação está registrada com um sobrenome diferente daquele que uso para escrever hoje. Quando dei entrada na cidadania italiana, precisei alterar legalmente meu sobrenome para recuperar a grafia original da minha família, Pescuma. Uma mulher que sai em busca do lugar de onde veio e acaba encontrando. Eu não planejei o simbolismo. Napoli planejou.)

Então aqui vai a cronologia completa. Na verdade, comecei a escrever Loveandpizza.it em 2009, quando ainda morava em Napoli, rabiscando cenas no laptop junto à janela da cozinha, onde o Wi-Fi pegava melhor, sem nenhum plano de verdade para o que aquilo viria a se tornar. Foi o mestrado, alguns anos depois, que me deu um prazo e me obrigou a realmente terminar alguma coisa.

Recebeu uma nota modesta, foi parar numa pasta e esperou mais alguns anos, até que finalmente terminei o livro durante um NaNoWriMo e publiquei a versão original em inglês. E agora ele está voltando em três idiomas, o que me parece um segundo ato e tanto para uma história que eu nem tinha certeza se era boa o suficiente para colocar no mundo, mas que era uma carta de amor a uma cidade pela qual eu ainda estava me apaixonando perdidamente.

E tem muito mais nesta série sobre tudo isso e sobre os mecanismos práticos de escrever o livro.

Agora é a sua vez: existe algum lugar que te marcou tanto que quase parece uma pessoa? Uma cidade, um vilarejo, uma cozinha, um pedaço de litoral? Me conta qual é e como esse lugar te impactou.👇

Dani. x

P.S. Loveandpizza.it está voltando em inglês, italiano e português. Reserve a sua fatia aqui e você será um dos primeiros a saber assim que a sua edição estiver pronta. 🍕

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