A Napoli real por trás do livro
(Dia 15 de 31 – pedacinhos da história do universo de Loveandpizza.it 🍕)
Este post foi publicado originalmente como parte da minha jornada de 31 dias pelo universo de Loveandpizza.it. Agora você pode explorar aqui a série completa em português, um pedacinho da história de cada vez. 🍕
Às vezes, as pessoas me perguntam se a Napoli de Loveandpizza.it é inventada.
“Ah, não”, digo. “A Napoli deste romance é gloriosamente autêntica.”
Não precisei inventar muita coisa. Simplesmente coloquei no papel uma cidade que já era mais maluca, mais barulhenta, mais engraçada, mais bonita e muito mais extraordinária do que qualquer coisa que eu pudesse ter criado sozinha.
Antes de começarmos, porém, quero contar o que este post não é. Não é uma página arrancada de um guia de viagem, nem uma listinha organizada de “lugares do livro”. Porque estes não são apenas lugares reais que, por acaso, aparecem no romance. Ah, não… são lugares onde as minhas próprias memórias de Napoli se transformaram nas memórias de Carolina. Morei perto deles, caminhei por eles, estudei, comi, observei e escrevi neles… e então, em algum momento pelo caminho, entreguei todos eles a Carolina, Lisa, Luca e Fabrizio (que, por sua vez, são uma mistura de pessoas que fazem parte da minha vida e pessoas que conheci durante o meu ano em Napoli).
Então vou levar vocês para conhecer alguns dos lugares reais entrelaçados a Loveandpizza.it. Nada de grandes spoilers 🤐; só algumas migalhinhas do mapa.
(Bom… talvez uma ou duas migalhinhas em forma de beijo. O quê?? Vocês não acharam que teria beijo numa história chamada Loveandpizza.it?? Tcs-tcs, Caro Leitor. 😌)
Quartieri Spagnoli, onde tudo começou

As primeiríssimas páginas de Loveandpizza.it foram escritas no pequeno apartamento onde eu morava, bem no coração do Quartieri Spagnoli. E preciso dizer que a chegada de Carolina não teve absolutamente nada de um retiro tranquilo de escrita, com vista para as montanhas e uma vela caríssima acesa ao lado do caderno. Ela foi parar bem no meio de Napoli, de um jeito bastante traumático.
Vozes viajavam de uma sacada para outra. Scooters se espremiam por ruas estreitas demais para que aquilo sequer parecesse possível. Roupas secavam penduradas sobre a cabeça de todo mundo, música escapava pelas janelas abertas e conversas inteiras aconteciam aos berros, de um andar para outro.
O Quartieri não ficou educadamente do lado de fora enquanto eu escrevia. Entrou direto, e suas ruas, seus sons, suas famílias e seus cantinhos escondidos se tornaram parte do próprio coração da história. É também o pedaço de Napoli mais ligado aos mundos de Carolina, Lisa e Fabrizio.
Mas esse bairro merece muito mais do que uma única seção. Então, a seguir, o Quartieri Spagnoli vai receber toda a atenção que merece.
Via Nazario Sauro: escrevendo à beira-mar
Eu nem sempre ficava trancada no apartamento. Em alguns dias, pegava meu caderno, descia até a orla e me instalava perto de um pequeno quiosque na Via Nazario Sauro para escrever com todo o Golfo de Napoli diante de mim: o Vesúvio observando do outro lado da água, a cidade zumbindo às minhas costas e, na maioria das vezes, uma cerveja gelada e alguma coisa salgada ao alcance da mão (eu adorava os mini pretzels que eles serviam com a cerveja 😋).

Virou um dos meus lugares preferidos no mundo para sentar, olhar para o mar e desaparecer dentro da história. Então, anos depois, dei exatamente aquele cantinho a Carolina.
Um pequeno spoiler em forma de beijo chegando. Embora, sinceramente, isto seja Loveandpizza.it. Vocês sabiam que teria beijo, não sabiam?
É também onde Carolina e Fabrizio se beijam pela primeira vez. 😍
E essa é uma das coisas que mais amo em escrever ficção: um lugar pode pertencer primeiro a você, carregando suas tardes comuns e a pessoa que você era naquela época, e então você escreve uma história ali e, de repente, ele começa a carregar as memórias de outra pessoa também.
7 Soldi: a pizzaria real por trás da história
Pausa para a pizza. Afinal, estamos em Napoli. 🍕

A pizzaria de Loveandpizza.it foi inspirada na 7 Soldi, uma pizzaria real do Quartieri Spagnoli, onde comi o que até hoje considero uma das melhores Margheritas da minha vida. Ainda volto lá toda vez que estou em Napoli. O lugar ficou preso na minha imaginação muito depois da última mordida (sempre sonhando com a pròxima 😅) e, no fim, encontrou seu caminho até o romance.
A pizzaria é real. O que acontece lá dentro pertence totalmente à história, e muita coisa acontece lá dentro. 🤫
No livro, ela se torna um daqueles lugares aos quais a história continua voltando: um ponto de encontro, um refúgio e o cenário de vários momentos que eu não tenho a menor intenção de explicar aqui. (Olhem só para mim… mostrando autocontrole. Crescimento pessoal. 😇) Há alguma coisa numa verdadeira pizzaria napolitana, o calor, o barulho, o movimento constante, todo mundo metido na vida de todo mundo, que dá a uma cena exatamente a proximidade e a pressão de que uma história de amor precisa. Então peguei tudo emprestado.
Scaturchio: onde eu estudava italiano e Carolina… não
Na Piazza San Domenico Maggiore fica a Scaturchio, uma confeitaria histórica que faz parte da paisagem da praça há bem mais de um século, famosa por doces napolitanos clássicos como sfogliatelle e babà.


É também onde eu costumava sentar para estudar italiano. Ou tentar. Tinha um café, alguma coisa doce e uma página de conjugações verbais à espreita, pronta para destruir a minha autoconfiança, enquanto a praça inteira encenava seu espetáculo diário ao meu redor. Na verdade, eu nunca estava estudando apenas o idioma ali; estava estudando Napoli: como as pessoas se cumprimentavam, quanto tempo alguém conseguia fazer um único café durar, como uma tarde absolutamente comum conseguia, de alguma forma, virar um espetáculo.
Carolina se lembra da Scaturchio de um jeito bem diferente.
Porque a Scaturchio também é onde Luca a beija pela primeira vez. Às escondidas.
Então, aparentemente, eu ficava ali lutando com a gramática italiana… enquanto Carolina recebia uma aula bem mais interessante. 😳
Via Toledo, Piazza Dante and Gesù Nuovo: encontrando seu caminho
Quando Carolina chega, Napoli ainda não é dela. É barulhenta demais, cheia demais, imprevisível demais. As ruas têm sua própria lógica, e as pessoas também.
E então ela começa a caminhar. Do Vomero em direção à Piazza Dante, seguindo pela Via Toledo e entrando no centro histórico. Essas ruas eram importantes para mim porque me permitiam mostrar, aos poucos, como a relação dela com a cidade ia mudando: de início, ela só tenta não se perder; depois olha; depois começa a perceber; e, por fim, sente que pertence àquele lugar.

A Chiesa del Gesù Nuovo, com sua extraordinária fachada de pedras em relevo, também aparece nas primeiras explorações de Carolina e Lisa. A igreja está ligada a San Giuseppe Moscati, médico e santo napolitano, cuja história acaba entrando na conversa das duas. E é na Piazza del Gesù Nuovo que começa a famosa Spaccanapoli: aquela rua longa e perfeitamente reta que corta o centro antigo como uma faca atravessando uma sfogliatella quentinha.
E, em algum lugar daquele emaranhado de ruas antigas, dentro de uma das igrejas do centro histórico, Carolina vive um encontro extraordinário só dela. Mas essa é uma história que pertence ao livro.

Eu nunca quis que Carolina se apaixonasse por Napoli instantaneamente. Teria sido fácil demais e nada convincente depois das primeiras impressões dela. Ela precisava descobrir a cidade aos pedaços: uma praça, uma igreja, uma rua, uma história, uma pessoa. Napoli não está muito interessada em causar uma boa primeira impressão. Às vezes, faz você se esforçar para conquistar essa relação.
Vomero and Castel Sant’Elmo: Napoli vista de cima
Logo no começo, Carolina e Lisa pegam o funicular até o Vomero e caminham até Castel Sant’Elmo, a grande fortaleza no alto da colina, famosa pelas vistas impressionantes da cidade e do golfo. E, pouco antes de chegarem lá, Carolina come sua primeira verdadeira Margherita napolitana, um relacionamento que, fico feliz em informar, começa de maneira muito mais tranquila do que a relação dela com a própria Napoli.

Então a cidade inteira se abre lá embaixo. Vista dali, Napoli parece quase calma: as ruas apertadas descendo em direção à água, o golfo refletindo a luz e o Vesúvio se erguendo ao longe.
Para Carolina, porém, aquela vista não é apenas bonita. O Vesúvio a fascina e também a deixa inquieta. Ela simplesmente não consegue entender como as pessoas seguem suas vidas normais debaixo de um vulcão como se fosse a coisa mais comum do mundo. (Enquanto isso, os napolitanos provavelmente estão se perguntando por que essa garota não para de olhar para ele.)
Aquele momento me deu uma maneira de mostrar duas coisas ao mesmo tempo: Carolina começando a cair sob o encanto da cidade, enquanto continua tendo um pouquinho de medo dela. O que, pensando bem, descreve bastante bem vários dos relacionamentos de Carolina.
Castel dell’Ovo: o castelo protegido por um ovo
À beira-mar fica o Castel dell’Ovo.

Napoli poderia, é claro, ter dado ao castelo o nome de um rei, uma batalha ou alguma grandiosa vitória militar. Em vez disso… um ovo. E, naturalmente, existe uma lenda.
Uma das lendas conta que o poeta romano Virgílio, autor da Eneida, escondeu um ovo encantado nas fundações do castelo. Enquanto o ovo permanecer inteiro, toda a estrutura continuará de pé e Napoli estará segura. Se algum dia ele quebrar, vem a catástrofe. O que me parece um sistema de proteção civil perfeitamente razoável, se querem saber.
O castelo avança sobre a água, com o golfo ao redor e o Vesúvio mais adiante, um daqueles lugares onde Napoli parece ter se organizado de propósito para alcançar o máximo de efeito dramático. Ele faz parte de Loveandpizza.it porque é impossível separá-lo da paisagem emocional da cidade. Napoli é cheia de história, sim, mas também é cheia de histórias. Santos, poetas, catacumbas, fantasmas, milagres, superstições e ovos mágicos convivem tranquilamente com o trânsito, e ninguém acha essa combinação nem um pouco estranha.
Isso faz parte do encanto da cidade.
Marechiaro: poesia, paixão e uma noite inesquecível
E então temos Marechiaro.

Marechiaro é um cantinho minúsculo à beira-mar no bairro de Posillipo, cheio de barcos de pesca e brisa marítima, e onde fica uma janelinha famosa, a fenestrella, imortalizada na canção napolitana “Marechiare”, do poeta Salvatore Di Giacomo. Em Loveandpizza.it, porém, ela guarda uma história só sua.

Ela faz parte de uma das sequências mais românticas, e decididamente menos inocentes, de todo o romance. Não vou contar quem está lá, o que é dito nem o que muda depois. Mas posso dizer que envolve um trajeto de carro às pressas por Napoli, uma Margherita recém-saída do forno e “Gli Innamorati”, de Umberto Tozzi… e, bom. Digamos apenas que a pizza não é a única coisa esquentando. 😳
(Essa música aparece de novo na playlist de Loveandpizza.it. Mas vou me comportar e voltar para Marechiaro.)
A cidade fez metade do trabalho
Olhando para trás, percebo que Napoli não deu a Loveandpizza.it apenas um cenário. Deu à história seus caminhos, seus sabores, suas contradições, enfim, toda a sua geografia emocional.
Eu dei a Carolina os lugares onde tinha estudado, escrito, caminhado sem rumo e comido. Ela os preencheu com suas próprias primeiras impressões, amizades, erros, beijos e descobertas. E agora as memórias estão entrelaçadas para sempre: Scaturchio pertence à versão de mim curvada sobre um jornal italiano e um dicionário, e também pertence a Carolina e Luca. Via Nazario Sauro pertence a mim, ao meu caderno e àquela vista do Vesúvio, e também pertence a Carolina e Fabrizio.
O Quartieri Spagnoli me deu um lugar para morar; mais tarde, deu à história o seu coração.
É por isso que este artigo jamais poderia ser um guia comum de Napoli. Eu não queria dar a vocês uma lista de pontinhos num mapa. Queria colocar nas mãos de vocês, e carimbar no coração, um mapa de como uma cidade real se tornou parte de uma vida imaginária.
E a verdade é que Napoli fez metade do trabalho por mim. Tudo o que eu precisei fazer foi prestar atenção.
Quer passear por lá também?
Se tudo isso te deixou com vontade de pegar o passaporte (e não culpo você nem um pouquinho), aqui estão os lugares reais, aqueles que aparecem no livro, além de alguns outros cantinhos desse mundo que valem muito a visita:
- 7 Soldi pizzeria: su Instagram @7soldi1962
- Centro Histórico de Napoli: UNESCO
- Scaturchio: sua história
- Chiesa delle Anime del Purgatorio ad Arco: Leia mais
- Marechiaro: Leia mais
- Napoli Sotterranea (a cidade antiga sob a cidade): napolisotterranea.org
- Reggia di Caserta: reggiadicaserta.cultura.gov.it
- Pompeia: pompeiisites.org
- Herculano: ercolano.cultura.gov.it
- Vesuvio: visitpompeiivesuvius.com
- Capri: capritourism.com
A seguir: por dentro do Quartieri Spagnoli
A seguir, vamos direto para o canto mais barulhento e gloriosamente vivo de toda a cidade: o Quartieri Spagnoli, o bairro que Carolina passa a chamar de lar. Aquelas ruazinhas íngremes mais do que merecem um post só delas… e quem sabe o que pode estar esperando na próxima esquina. Fé, uma boa dose de confusão, um altar de rua, uma scooter desgovernada e a eterna verdade napolitana de que o amor, assim como a pizza, vem com opções tentadoras demais. 😉
Mas antes de vocês irem, me contem:
Vocês já foram a Napoli, ou ela ainda está na lista? E qual é aquele lugar, em qualquer parte do mundo, que guarda para vocês tanto uma memória real quanto uma história? 👇
Dani. x
P.S. Loveandpizza.it está voltando em inglês, italiano e português. Garanta a sua fatia e seja uma das primeiras pessoas a saber quando a sua edição estiver pronta. 🍕
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