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Por dentro do Quartieri Spagnoli


Carolina mora no Quartieri Spagnoli: um emaranhado de ruazinhas estreitas e íngremes no ventre de Napoli. Roupas penduradas lá no alto como bandeirinhas. Scooters se enfiando por espaços onde uma scooter simplesmente não deveria caber, passando voando pelas pessoas, buzinando sem parar e aterrorizando todo gato, cachorro e pedestre pelo caminho. Altares de rua iluminados em cada esquina. Pôsteres de Maradona e altares dedicados a Maradona (o que faz esta brasileira aqui franzir bastante a testa, muito obrigada 🇧🇷). E barulho. Um barulho glorioso, do amanhecer até muito depois da meia-noite.

Eu também morei lá. Então deixa eu contar como é de verdade.

A street shrine in Naples with a crowned Madonna and Child
“Fundada em 1906, pela devoção dos fiéis.” (E sim, aquele reflexo no vidro sou eu.) Foto do meu arquivo pessoal
A shrine to Diego Maradona in Naples containing a framed photo, a lock of his hair and religious icons
Um altar de verdade, com uma mecha de cabelo de Maradona de verdade, colocada entre San Gennaro e a Madonna. Esta brasileira está franzindo a testa… 🇧🇷⚽ (Foto do meu arquivo pessoal)

Primeiro, um pouco de história (isso explica tudo)

O Quartieri não foi construído para ser charmoso. Foi construído para alojar soldados.

Em 1532, o vice-rei espanhol Don Pedro de Toledo, sim, o mesmo homem que deu nome à Via Toledo, reorganizou esse pedaço da cidade para abrigar as tropas espanholas e suas famílias, bem ao lado dos centros de poder. O resultado foi uma malha apertada, quase como um tabuleiro de xadrez: seis ruas longas paralelas à Via Toledo, cortadas por dezenas de ruazinhas menores, todas subindo em direção a San Martino.

Os prédios começaram baixos. Depois, à medida que cada vez mais gente se espremia ali, foram crescendo: dois andares, três, quatro, cinco, empilhados em direção ao céu porque simplesmente não havia mais para onde ir. Acrescente os bassi, aquelas famosas casas térreas que se abrem diretamente para a rua (meus bisavós moravam em uma delas, na região da Basilicata!), e você tem um dos bairros mais densamente povoados da Itália. Ao escrever este post, em julho de 2026, o Quartieri faz parte da região de Montecalvario e abriga cerca de 30 mil pessoas, vivendo numa densidade aproximadamente quatro vezes maior que a do restante da cidade. Uma pequena cidade espremida em poucas centenas de metros de encosta.

A worn tourist map of Naples with the Quartieri Spagnoli circled in blue pen
Meu verdadeiro mapa de Napoli de 2008, com direito ao círculo azul marcando o bairro onde todo mundo me dizia para não morar. Leitor, eu fui morar lá! 🤩 (Foto do meu arquivo pessoal)

E é por isso que o Quartieri tem essa sensação tão particular. Quando você constrói um lugar para soldados e depois enfia cinco séculos de vida familiar ali dentro, sua vida deixa de ser só sua. E você simplesmente aceita.

Você nunca, nunca está sozinho

Como eu disse antes, no Quartieri, a sua vida é assunto de todo mundo, e a vida de todo mundo também acaba sendo assunto seu.

A narrow Naples alley decorated with red hearts and lights for Valentine's Day, with flower stalls below
Aqui, até os becos ficam românticos. “Un giorno all’improvviso mi innamorai di te”: “Um dia, de repente, eu me apaixonei por você.” Napoli não sabe ser discreta. 😉💘 (Foto do meu arquivo pessoal)

A senhora do outro lado do beco sabe o que você comeu no jantar. Alguém vai baixar um cesto preso por uma corda da janela do quarto andar para pegar as compras exatamente na hora em que você estiver saindo pela porta de casa. Uma completa desconhecida vai dizer que seu casaquinho é fino demais para fevereiro e que você realmente não deveria sair de casa com o cabelo molhado (🙋🏻‍♀️ culpada, repetidas vezes), e vai dizer cada palavra com carinho.

Era para parecer uma invasão. Mas, de algum jeito, parece que você foi envolvida num abraço por uma nonna italiana que nunca conheceu.

Domani, domani

Todo apartamento em Napoli vem com uma história, e o meu veio com um senhorio e uma aula de italiano que nunca esqueci.

Na primeira vez em que fui pagar o aluguel, fiquei parada na frente dele, envelope na mão, enquanto ele repetia:

“Domani. Domani.”

“Sim”, respondi, estendendo o dinheiro. “Aqui está.”

“Domani. Domani.”

“…Sim! Aqui está o aluguel!” (a frustração já começando a aumentar)

Isso continuou por algum tempo. Foi só quando voltei para o apartamento, com o envelope ainda no bolso, que meu marido e eu nos olhamos e finalmente entendemos o que aquele pobre homem estava tentando me dizer desde o começo: domani significa tomorrow. “Volte amanhã!” 😂 Ele não estava dizendo “the money”. 🤦🏻‍♀️

Pronto. O Quartieri em uma cena. Você aprende italiano do jeito mais difícil: parada numa porta, absolutamente confiante e completamente errada.

(Carolina, sendo Carolina, chega com teorias bem mais elaboradas sobre os próprios vizinhos. Mas essa história pertence ao livro. 😏)

Mas espera: Carolina não começou aqui

Nem Carolina nem eu começamos nossa vida em Napoli no Quartieri.

Minha verdadeira vida em Napoli começou lá em Chiaiano, na periferia norte da cidade, e a de Carolina também começa ali. Isso significa que o Quartieri não são onde a história começa. São onde ela chega: o lugar que Carolina escolhe mais tarde, depois de experimentar um pouco da cidade e decidir que, afinal, quer morar bem no meio de tudo aquilo.

E essa escolha importa muito mais do que parece. (Perguntem a uma certa pessoa o que ela achou disso. Pensando bem, melhor não. 😌)

O lugar onde me senti mais viva

As pessoas me alertaram sobre o Quartieri. Barulhento demais, malcuidado demais, demais em todos os sentidos.

Até meu guia de viagem me alertou. Estava lá, preto no branco: densamente povoado, um tanto degradado e, minha frase favorita, “os turistas devem tomar cuidado ao visitar a região.” (Eyewitness Travel, Naples & the Amalfi Coast.) Tomar cuidado! Na região onde eu, naquele exato momento, estava pendurando meu pijama para fora da janela como todo mundo fazia. 😄

Meus alunos não eram muito diferentes. Um deles ficou genuinamente horrorizado:

“Professora!!! Minha mãe nunca me deixaria chegar perto desse lugar!”

E todos eles tinham razão, é claro. O Quartieri e todas essas coisas. Barulhento, meio bruto, intenso demais. Mas também foi o lugar onde me senti mais viva em toda a minha vida…

E preciso dizer isto porque importa: eu nunca me senti em perigo ali. Nem uma única vez. Eu tinha menos medo caminhando pelas ruas do Quartieri do que tenho andando pela minha própria cidade. Um bairro onde todo mundo sabe da sua vida acaba sendo também um bairro onde todo mundo, discretamente, está de olho no que acontece ao seu redor. Para mim, de algum jeito, isso era reconfortante.

Carolina sente exatamente a mesma coisa, embora jamais admitisse em voz alta.

Então me contem com sinceridade: vocês conseguiriam morar num lugar tão barulhento e tão cheio de vida, ou precisam de paz e silêncio para se sentirem vocês mesmos? 👇

Dani. x

P.S. Loveandpizza.it está voltando em inglês, italiano e português. Garanta a sua fatia e seja uma das primeiras pessoas a saber quando a sua edição estiver pronta. 🍕

Quer saber mais sobre o Quartieri?

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