O Vesúvio está sempre de olho
(Dia 20 de 31, pedacinhos de história do mundo de Loveandpizza.it 🍕)
Este post foi publicado originalmente como parte da minha jornada de 31 dias pelo universo de Loveandpizza.it. Agora você pode explorar aqui a série completa em português, um pedacinho da história de cada vez. 🍕
Onde quer que você esteja em Napoli, mais cedo ou mais tarde olha para cima, ou para a frente, e lá está ele: o Vesúvio. (Vesuvius, se quiser ser formal. Ninguém em Napoli quer.) Imenso, silencioso, absurdamente lindo e, tecnicamente, capaz de acabar com a festa inteira a qualquer momento. Os napolitanos vivem à sombra dele e simplesmente… dão de ombros.

Eu acho isso fantástico. E aterrorizante.
A montanha em todas as janelas
Ela aparece em todas as fotos, você querendo ou não. Fica ali atrás dos varais de roupa, das torres das igrejas e dos mastros das balsas, uma presença permanente, sempre de olho. No livro, ela também está sempre lá, porque, na vida real, está mesmo.

Você não pinta o Vesúvio no fundo de Napoli. É Napoli que é pintada ao redor do Vesúvio.
Eles nem chamam de vulcão
No dialeto, é ’a muntagna. A montanha. Não “o estratovulcão ativo com um histórico documentado de erupções capazes de acabar com civilizações”. Só… a montanha. Como você falaria de um parente meio complicado, um pouco imprevisível no Natal, mas que, no fim das contas, continua sendo da família.

E é família mesmo. O Vesúvio está nas cerâmicas, nos panos de prato, nos ímãs de geladeira, nas tatuagens, nos conjuntos de papelaria (uma amiga me deu um lindo uma vez!), nos murais de futebol, nos presépios. Dois mil anos de napolitanos pintando, de novo e de novo, justamente aquilo que pode matá-los. O escritor Jeff Matthews, que viveu em Napoli por cerca de quarenta e cinco anos e deixou praticamente uma enciclopédia inteira sobre a cidade, achava que toda essa arte equivalia a uma espécie de ritual para agradar a montanha. Mantenha a montanha feliz. Faça carinho no ego dela. Olha o quanto a gente te ama. Olha como a gente te desenhou bonita. Por favor, não faça isso.
A montanha que também alimenta
E aqui vem a parte que me deixou meio boquiaberta. O solo vulcânico é absurdamente fértil. Então as mesmas encostas que enterraram Pompeia hoje produzem o pomodorino del piennolo, aqueles tomatinhos que ficam pendurados em cachos nas varandas napolitanas durante o inverno, e o Lacryma Christi del Vesuvio, um vinho cujo nome significa “lágrimas de Cristo”.
Não é de explodir a cabeça pensar nisso? A montanha que poderia acabar com Napoli é também, literalmente, um dos motivos pelos quais a pizza tem aquele sabor.
Desculpa, mas não dá para inventar uma coisa dessas. Se eu colocasse isso num romance, meu editor passaria delicadamente um risco por cima e escreveria “perfeito demais para ser verdade” na margem. Mas, nem ligo, eu coloquei na história mesmo assim!
Construíram uma ferrovia nela. Depois escreveram um jingle.
Em 1880, alguém olhou para um vulcão ativo e pensou: turistas.
Construíram um funicolar na encosta da montanha e, para divulgar a inauguração, Peppino Turco e Luigi Denza fizeram uma musiquinha.
Essa música era Funiculì, Funiculà.
Sim. Essa mesma. A que você está cantarolando agora. A canção mais contagiante da história da Europa era, na verdade, uma propaganda para vender uma viagem de trem num vulcão.
E melhora ainda mais, porque a letra é basicamente uma cantada. O rapaz conta para uma moça que subiu a montanha e pergunta se ela quer subir com ele. É isso. Essa é a música inteira. Alguém construiu uma ferrovia na encosta de um vulcão ativo, contratou dois homens para ajudar a vender passagens e o que os dois entregaram foi um rapaz tentando convencer uma moça a embarcar com ele.
Se você quiser um único fato capaz de explicar a alma napolitana, te ofereço esse de graça.
San Gennaro contra a cratera
Depois vem o padroeiro da cidade, San Gennaro, cujo sangue seco é guardado em um relicário de prata no Duomo e que, três vezes por ano, dizem que se liquefaz. Quando acontece, a cidade respira aliviada. Quando não acontece, todo mundo fica um pouquinho nervoso.
Entre os milagres atribuídos a ele está o de ter desviado a lava da cidade em 1631. Há igrejas e altares espalhados pelas cidades ao redor do Vesúvio que existem exatamente por esse motivo. É um acordo que funciona. A montanha resmunga, o santo intervém, a cidade continua comendo.
Centenas de milhares de pessoas vivem na zona vermelha oficial, em cima dos mapas de evacuação, ao lado dos sismômetros, com seus tomates na varanda. Elas sabem. Sempre souberam. E ficam mesmo assim. (Você ficaria? Eu ficaria, feliz da vida. 😌)
Viver bem, porque nada é garantido

Eis o que um vulcão ensina a uma cidade: nada é garantido, então é melhor viver.
Coma a pizza. Beije o rapaz. Diga aquela coisa corajosa. Pegue a balsa para a ilha só porque a luz está bonita. Mate aula e vá tomar sol nas pedras.
Existe um motivo para Napoli parecer mais viva para mim do que qualquer outro lugar onde já estive: ela passou dois mil anos sabendo exatamente o quanto tudo é frágil. Não de um jeito macabro. Mais de um jeito me passa o vinho?
Você sabia que a última erupção significativa do Vesuvio foi em 1944?
O impacto do Vesúvio em Carolina
Carolina chega cautelosa, na defensiva, decidida a manter o coração trancado numa gaveta.
E uma cidade que vive como se o amanhã não fosse garantido é um lugar extremamente inconveniente para quem está tentando continuar sendo cautelosa.
A montanha não chega exatamente a forçá-la a mudar. Ela simplesmente… está ali para lembrá-la. Bem na frente dela. Todos os dias.

Agora me conta: você conseguiria viver à sombra de um vulcão? E, vai… qual é aquela paisagem na sua vida que faz o coração quase parar toda vez que aparece? 👇
Dani. x
P.S. Loveandpizza.it está voltando em inglês, italiano e português. Reserve a sua fatia aqui e você será um dos primeiros a saber assim que a sua edição estiver pronta. 🍕
P.P.S. Se quiser saber mais, eu super recomendo este livro: In the Shadow of Vesuvius: A Cultural History of Naples (link de afiliado). E, se estiver realmente pensando em ir, este guia para visitar o Vesúvio é útil para conferir as informações práticas mais atualizadas sobre ingressos, transporte e como chegar. E prepare-se para caminhar um pouco morro acima. Use sapatos adequados. Eu não usei. 🫣
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