Como a ficção me ajudou a entender a vida real
(Dia 22 de 31 – pedacinhos de história do mundo de Loveandpizza.it 🍕)
Este post foi publicado originalmente como parte da minha jornada de 31 dias pelo universo de Loveandpizza.it. Agora você pode explorar aqui a série completa em português, um pedacinho da história de cada vez. 🍕
Quando comecei a escrever Loveandpizza.it, não estava tentando entender melhor a minha própria vida. Eu queria escrever uma história de amor ambientada em Napoli. Uma história que vingasse minha irmãzinha e devolvesse a ela um pouco do poder depois de ter tido o coração partido. Era só isso. Mas, em algum ponto durante a escrita, o livro começou a me devolver coisas que eu não tinha colocado ali de propósito.
Carolina chegou a Napoli sem conhecer as regras. Pelo menos não as regras não ditas: aquelas sobre o quanto você pode admitir abertamente que quer alguma coisa, sobre quanto de si mesma deve esconder até se sentir segura o suficiente para mostrar. Dei tudo isso a ela porque era verdade sobre a cidade e porque também era verdade sobre ser estrangeira ali. Demorei mais do que gostaria de admitir para perceber que também era verdade sobre mim. Eu também tinha chegado a Napoli sem conhecer as regras.
Recém-casada (havia uma semana!), começando uma vida nova numa cidade nova, onde eu mal conseguia me virar no idioma. Dizer que foi desafiador é pouco. Felizmente, assim como Carolina, pelo menos eu tinha um emprego.
A ficção diz aquilo que você não conseguia dizer
Existe um tipo de honestidade possível numa história inventada que é difícil encontrar em outros lugares. Você pode entregar um sentimento a uma personagem e observar o que ela faz com ele e, de alguma forma, isso acaba te mostrando muito mais do que encarar aquele mesmo sentimento diretamente dentro de você jamais conseguiu.
Dei a Carolina uma saudade de casa que eu conhecia muito bem. Dei a ela o hábito de perdoar as pessoas mais depressa do que elas mereciam. Dei a ela a segurança de Luca, aquela que parece amor, mas não é exatamente. Nada disso era clínico. Eu não estava me diagnosticando nas páginas. Mas escrever as decisões dela, uma depois da outra, me ensinou coisas sobre as minhas próprias decisões que eu não tinha conseguido entender de nenhuma outra forma.
Esse é o estranho presente da ficção. É uma porta lateral. Você entra para contar uma história e sai tendo entendido alguma coisa em torno da qual vinha andando em círculos havia anos, sem nunca conseguir olhar diretamente para ela.
A cidade ensinou a personagem, e a personagem me ensinou
Napoli faz barulho com tudo: amor, fome, alegria, tristeza, tudo gritado de janelas e varandas sem a menor vergonha. Eu morava ali sem me permitir a mesma liberdade. Acho que cresci, como tantos de nós, aprendendo a “abaixar o volume”.
Escrever uma heroína vivendo naquela cidade e, devagar e teimosamente, começando a seguir as regras de Napoli em vez das minhas foi a maneira que encontrei de me dar uma permissão que eu não tinha conseguido me dar diretamente. Carolina aprendeu a fazer barulho antes de mim. Ela podia querer as coisas em voz alta, errar em voz alta, amar mal e abertamente e depois se levantar de novo. Eu a escrevi assim porque Napoli exigia isso dela. E então percebi que começava a exigir um pouquinho da mesma coisa de mim.

É isso que ninguém te conta quando você começa a levar a ficção a sério. Você acha que está construindo um mundo para um leitor, quando metade do tempo está, na verdade, construindo uma porta para si mesma e só percebe quando já atravessou.
Por que criei um espaço para isso
Essa porta lateral é exatamente o motivo pelo qual existe The Writing Shed Club. Ele não nasceu como um lugar para aprender regras de escrita, embora você acabe aprendendo algumas pelo caminho. Eu o criei como um espaço onde mulheres que amam histórias podem se sentar, escrever algo verdadeiro embrulhado em algo inventado e ver o que a escrita devolve para elas.
É um cantinho íntimo e acolhedor da internet. Faço sessões regulares de escrita em grupo, se você quiser companhia, ou você pode simplesmente encontrar um prompt em uma das “salas” e escrever sozinha. 🤗 Mas não existe pressão e não existe “perfeito”. Só a mesma coisa que fez Loveandpizza.it ser escrito em primeiro lugar e que continua me fazendo escrever hoje: aparecer para escrever e deixar a história te contar alguma coisa que você não sabia que sabia.
E sim, porque eu sei que vocês vão perguntar 😉, o Writing Shed existe de verdade. Fica no fundo do meu jardim, cheio de livros, mantas e uma escrivaninha que nunca está completamente arrumada, e é ali que boa parte de tudo isso é escrita e onde me encontro online com as integrantes do Club para escrevermos juntas. O nome não é uma metáfora. É simplesmente o lugar onde eu trabalho (e me escondo).

Se alguma coisa disso estiver te puxando pela manga enquanto você acompanha esta série, considere este o seu convite. Pegue a sua chave do Shed e venha escrever comigo!
Agora é a sua vez: algum livro, filme, música, qualquer coisa inventada, já te mostrou alguma verdade sobre a sua própria vida que você não esperava encontrar? Adoraria saber o que foi. 👇
Dani. x
P.S. Loveandpizza.it está voltando em inglês, italiano e português. Reserve a sua fatia e você será um dos primeiros a saber assim que a sua edição estiver pronta. 🍕
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