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Napoli acredita


Napoli acredita.

Em Deus, nos santos, na sorte, no destino e, acima de tudo, naquele pequeno chifre vermelho pendurado em portas, retrovisores, chaveiros e colares por toda a cidade. Aqui, uma fé profunda e uma superstição bem-humorada convivem lado a lado, e ninguém acha isso nem um pouco estranho. É uma das coisas que mais amo em Napoli.

O pequeno chifre vermelho 

Racks of red cornicelli lucky horns for sale outside a shop in Naples

Ele se chama cornicello: um pequeno chifre vermelho e curvado, que está por toda parte, protegendo contra o malocchio, o mau-olhado.

Alguém vai colocar um na sua mão para dar sorte. Outra pessoa fará discretamente o gesto dos chifres se você disser alguma coisa que possa desafiar o destino. Você aprende rápido: em Napoli, não se fica contando vantagem sobre a própria sorte. Você toca no cornicello e continua humilde.

Uma fé que dá para sentir

A saint's statue in Naples surrounded by hundreds of silver ex-votos and pink and blue ribbons
Cada pequeno ex-voto de prata é um agradecimento. Cada fita representa um bebê. É assim que se parecem as preces atendidas quando estão todas reunidas numa parede. (Foto do arquivo pessoal)

E depois vem a devoção.

Altares iluminados nas esquinas. Bairros inteiros que rezam e festejam no mesmo fôlego. E San Gennaro, o padroeiro da cidade, cujo sangue seco é guardado em uma ampola e observado três vezes por ano por uma catedral cheia de napolitanos ansiosos, esperando para ver se ele vai se liquefazer. Se acontecer, Napoli está protegida por mais uma temporada. Se não acontecer… bom… Ninguém gosta muito de pensar nisso.

Entre em qualquer igreja e você vai encontrar paredes cobertas de pequenos ex-votos de prata: corações, mãos, braços, pernas, bebês. Cada um é um agradecimento deixado por alguém cuja prece foi atendida. Centenas deles, organizados em fileiras, como uma parede de recibos silenciosos.

Carolina, que é católica e conhece muito bem uma missa de domingo, acha essa mistura tão napolitana entre o sagrado e o supersticioso ao mesmo tempo desconcertante e maravilhosa.

As almas que adotadas

E depois vem aquela que até me dá arrepios só de pensar.

Em Napoli existe uma antiga prática, surgida no início do século XVII, chamada de culto das anime pezzentelle (as pobres almas que estão no purgatório).

Shrine to the anime pezzentelle in Naples, with old niches, crosses, flowers and offerings inside a weathered chapel-like space.
Deveria parecer macabro. Mas, em vez disso, o culto das anime pezzentelle tem uma ternura de partir o coração: uma cidade que se recusa a deixar até mesmo seus mortos sem nome caírem no esquecimento. – Igreja de Santa Maria delle Anime del Purgatorio ad Arco. (Foto do arquivo pessoal)

Funciona assim. Em algumas igrejas e no Cemitério delle Fontanelle, você encontra os crânios de mortos anônimos: pessoas enterradas em valas comuns, sem nome, sem família, sem ninguém que ainda possa chorar por elas. Um napolitano escolhe um deles e o adota. (Segundo a tradição, é no crânio que a alma habita.) Você o limpa. Dá a ele uma almofada, um nicho, flores, uma vela, um rosário. Vai visitá-lo. Conversa com ele.

E, em troca, você pede. Porque a relação funciona nos dois sentidos: a alma abandonada pede aos vivos o refrisco, um alívio das chamas do Purgatório, e os vivos pedem à alma uma graça, ajuda, um favor. duas solidões fazendo um acordo através do véu que separa os dois mundos.

Deveria ser macabro. Mas é uma das coisas mais ternas que já vi: uma cidade inteira se recusando a deixar alguém ser esquecido, até mesmo quem já não tem ninguém que saiba seu nome.

Lucia

E depois tem Lucia.

The skull of Lucia at the Chiesa delle Anime del Purgatorio ad Arco, wearing a bridal veil and crown, surrounded by flowers
Lucia. O véu de noiva, a coroa, as flores que as pessoas continuam levando para ela. A única alma de Napoli que todo mundo conhece pelo nome. A alma a quem se pede por amor. (Foto do arquivo pessoal)

Ela é, praticamente por unanimidade, l’anima più amata, a alma mais amada de Napoli. Seu crânio fica na cripta do Purgatorio ad Arco, usando um véu de noiva e uma preciosa coroa, ladeado por dois outros crânios que, segundo a imaginação popular, seriam seus servos.

A tradição lhe dá um nome: Lucia D’Amore. (Sim. D’Amore. A protetora das noivas se chama Lucia D’Amore. Eu juro que não inventei isso. Eu jamais ousaria! Na verdade, fiquei toda arrepiada enquanto caminhava pela cripta com uma guia, ouvindo as “histórias dos crânios” que “vivem” ali.) Lucia era filha de um príncipe e havia sido prometida em casamento a um homem que não amava.

E então a história se divide, gloriosamente, em uma dúzia de versões: ela não queria se casar com ele porque já amava outra pessoa e tirou a própria vida. Não queria se casar com ele e morreu de coração partido. Tentou fugir. Tinha tuberculose. Foi assassinada a caminho do altar. Ou, a minha favorita, ela realmente o amava e morreu afogada durante a lua de mel.

Ninguém entra em acordo. Em Napoli, nunca entram. A única coisa que todos aceitam é a parte triste: aquela jovem nunca teve seu casamento.

Então fizeram dela a protetora das noivas. É claro que fizeram. A moça que nunca chegou ao altar virou justamente aquela a quem se pede por amor, e desde então meninas e mulheres de Napoli e do mundo inteiro continuam indo até ela, geração após geração, deixando flores, bilhetes e pequenos presentes e pedindo que interceda por elas. A essa altura, ela é menos uma alma esquecida e mais uma celebridade de verdade. Com fila e tudo.

E aqui vem a minha parte preferida: em 1969, a Igreja chegou a proibir o culto. Um cardeal decidiu que as coisas tinham passado dos limites, com napolitanos demais rezando para crânios anônimos em vez de santos devidamente autorizados.

Napoli, nem é preciso dizer, continuou como se nada tivesse acontecido. Lucia continua recebendo suas flores. 😌

(Talvez você se lembre dela do meu post sobre os lugares reais por trás do livro. Carolina também vai visitá-la. Mas essa história fica para o livro.)

Sonhos, números e um jogo inventado por pura teimosia

Os napolitanos são famosos por transformar sonhos em números para jogar na loteria, e existe todo um sistema para isso. Ele se chama La Smorfia, um nome que provavelmente vem de Morfeu, o deus grego dos sonhos.

Cada número de 1 a 90 tem um significado. Sonhou com um gato? Tem um número. Uma morte? Um número. Um desconhecido, uma sopa, um cachorro latindo? Todos têm números. Sonhe com alguma coisa estranha e seu vizinho certamente terá uma opinião sobre qual combinação você deveria jogar naquela semana. Essa parte me diverte especialmente porque, no Brasil, temos algo parecido chamado jogo do bicho. 😀

E aqui está a minha parte preferida de toda essa história. No século XVIII, as autoridades proibiram a loteria durante as festas de Natal: imoral demais para aquela época do ano, aparentemente. Então os napolitanos, sendo napolitanos, simplesmente levaram o jogo para casa e inventaram o próprio: a tombola, jogada em volta da mesa de família em todos os Natais desde então, enquanto quem sorteia os números grita os significados da Smorfia a cada número tirado. Disseram que eles não podiam jogar. Eles inventaram um jogo melhor. (E o bingo, como o resto do mundo o conhece, descende daí.)

Pra mim, é a história mais napolitana que conheço.

A cidade inteira parece viver movida por uma convicção cheia de esperança: a de que existe significado escondido em todo lugar, basta saber como encontrá-lo.

E depois de algum tempo… eu também comecei a acreditar. E Carolina também…

Então me conta: você é supersticiosa? Nem que seja só um pouquinho? Tem algum ritual de sorte que jamais admitiria em plena luz do dia? 👇 (Aqui ninguém julga ninguém. Eu vivo batendo na madeira.)

Dani. x

P.S. Loveandpizza.it está voltando em inglês, italiano e português. Reserve a sua fatia aqui e você será um dos primeiros a saber assim que a sua edição estiver pronta. 🍕

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