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O Hospital das Bonecas


Em Napoli existe um lugar chamado Ospedale delle Bambole, o Hospital das Bonecas. Eu queria conhecê-lo desde a primeira vez em que morei na cidade e, durante anos, simplesmente não consegui. Passava por lá e estava fechado. Voltava outro dia e continuava fechado. Virou um daqueles pequenos desejos insistentes que você carrega com um lugar sem nunca conseguir realizar de verdade, até que, finalmente, quando voltei a Napoli para fazer pesquisa em 2012, consegui atravessar aquela porta.

Ospedale delle Bambole sign at the entrance of the doll hospital in Napoli
Esperei três anos para finalmente conhecer este lugar. Só depois pude colocá-lo na história. (Foto do arquivo pessoal)

Quando criança, eu sempre tive bonecas e ursinhos de pelúcia, como a maioria de nós, e alguma coisa na ideia daquele lugar já tinha me conquistado muito antes de eu conseguir ver o que havia lá dentro. Um hospital. Para bonecas. Um lugar que devolvia coisas quebradas, mas amadas, às pessoas que as amavam. Eu não conseguia imaginar como seria de verdade. Só sabia que queria estar lá dentro.

O que encontrei quando finalmente consegui entrar era, de alguma forma, ainda mais caótico e emocionante do que eu tinha imaginado. Bonecas por toda parte, penduradas, sentadas, apoiadas nas paredes, em todos os possíveis estágios entre quebradas e restauradas. Pequenas tigelas espalhadas pelas mesas continham apenas peças: olhos em uma, cabelos em outra, pequenas mãos pintadas em uma terceira, como uma oficina onde pessoas eram montadas pedaço por pedaço. Luzinhas penduradas por cima. Nas paredes, antigas fotografias em preto e branco mostravam gerações da mesma família fazendo o mesmo trabalho cuidadoso.

Rows of dolls hanging inside the Ospedale delle Bambole in Napoli, lit by fairy lights
Foi isso que me recebeu no dia em que finalmente atravessei aquela porta.
(Foto do arquivo pessoal)

A mulher que cuidava do lugar naquele dia tinha crescido ali. Antes dela, o pai. Antes dele, o avô. Geração após geração. Aquele tipo de orgulho que não precisa ser anunciado porque simplesmente virou a forma de uma vida inteira.

Enquanto trabalhava, ela me contou uma história atrás da outra, mas uma delas ficou comigo desde então. Uma mulher havia levado uma boneca que pertencera à sua mãe e que, anos antes, tinha sido dada à própria filha. Agora, a boneca estava quebrada. A menina estava arrasada, não exatamente por causa da boneca, mas porque a avó já tinha morrido e, de alguma forma, aquela boneca era o último pedacinho dela que ainda permanecia. Consertá-la não era realmente consertar um brinquedo. Era devolver a avó àquela criança, na única forma em que isso ainda era possível.

Black-and-white family photographs on the wall of the Ospedale delle Bambole, documenting four generations of doll restorers
Quatro gerações, todas na mesma sala, na mesma parede. Não é maravilhoso? ☺️
(Foto do arquivo pessoal)

Foi ali, naquela sala, que eu soube que Carolina precisava ir até aquele lugar.

A história ainda não estava terminada e esse era um daqueles lugares que eu tinha escolhido esperar para conhecer pessoalmente antes de escrevê-lo no romance. Então fiquei ali, caderno na mão, tentando absorver cada detalhe. E, quando mais tarde escrevi a cena de Carolina, as tigelas cheias de olhos, o orgulho na voz da mulher, a história da boneca da menina, tudo veio diretamente daquela tarde. Mudei pouquíssima coisa.

Simplesmente dei a Carolina aquela minha tarde.

Há um momento naquela cena em que Carolina segura uma pequena boneca e pensa, quase para si mesma: Será que eles conseguiriam consertar a mim também? Não vou contar o que a levou até aquela porta, porque isso pertence à história, não a este post. O que posso contar é que ela chega ali frágil, insegura, carregando mais culpa do que sabe o que fazer com ela, com o coração partido daquele jeito que faz até as manhãs mais normais parecerem difíceis e, por baixo de tudo isso, ainda agarrada a alguma esperança. É muita coisa para carregar ao entrar numa sala cheia de bonecas quebradas esperando para ficarem inteiras outra vez.

Vou ser sincera com vocês, porque esta série tem sido, em grande parte, sobre isso: sinceridade. Eu também não estava completamente bem naquele dia. Não entrei ali porque precisava que alguém consertasse uma boneca. Mas, naquela sala, cercada por todo aquele trabalho lento, paciente e cuidadoso de reconstrução, me peguei pensando exatamente aquilo que mais tarde entregaria a Carolina. Não conserte a boneca. Conserte a mim. A de verdade.

Acho que esse é o verdadeiro poder daquele lugar, para nós duas. Ali, as bonecas não são substituídas. Elas são consertadas, devagar, com cuidado de verdade, por alguém que dedicou a vida a acreditar que vale a pena fazer isso. E acho que alguma coisa dentro da gente funciona da mesma maneira. A autoconfiança, a esperança, a capacidade de confiar em si mesma, qualquer coisa que tenha ficado mais silenciosa depois de uma fase difícil, nada disso pode simplesmente ser trocado por uma versão nova. Precisa ser consertado. Com paciência, de dentro para fora. Quase sempre por nós mesmas e, às vezes, com as mãos firmes de outra pessoa nos ajudando.

Doll parts, eyes and hair scattered across a workbench inside the Ospedale delle Bambole
Cada peça naquela mesa guardava um pedaço diferente da memória de alguém.
(Foto do arquivo pessoal)

Se alguma coisa dentro de você já pareceu um pouco quebrada, espero que saiba que ela também pode ser consertada. Não substituída. Consertada. Existe uma diferença. E ela importa.

Agora é a sua vez: existe algum lugar que você admirou de longe durante anos antes de finalmente conseguir atravessar a porta? E o que encontrou quando conseguiu? 👇

Dani. x

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